Barco RabeloPainel de azulejos na Estação do Pinhão
Que epopeia a dos barcos rabelos! Que tragédia a da sua tripulação ao longo dos séculos, Douro abaixo, Douro acima, por entre escolhos vários e mil perigos! E muita desgraça! Quem navegar hoje no Douro não imaginará as tormentas padecidas por esta brava e destemida gente. O Douro hoje é uma estrada líquida, tranquila, calma e segura, sulcada por paquetes confortáveis para turistas desfrutarem, embasbacados, toda a espantosa beleza das suas margens polvilhadas de vinhedos e mortórios, de pomares reflectidos nas suas águas, de penedias suspensas dos altos céus. O suor das suas gentes transformado em mosto, hoje, é transportado em camiões cisternas pelas vias rodoviárias. Dantes a única via propícia para o seu escoamento era o rio, fero e medonho; assustador e perigoso. Só os barcos rabelos, carregados de pipas pejadas do generoso líquido se atreviam a sulcá-lo, contornando habilmente os penedos que lhe apertavam o leito e agigantavam o caudal. Que de sacrifícios! Que de padecimentos! Que vidas duras e tenebrosas a dessa gente audaz e destemida! Que vidas!
BARCO RABELO
Balouço tranquilo em tuas águas
E recordo as viagens de outros tempos
Sem alardes sem pesares sem mágoas
Com saudades sim mas sem lamentos
Para te sulcar muitas vezes fui desfeito
Contra as fragas que estreitavam tuas margens
Muitos cascos meus roçaram no fundo do teu leito
Muita gente ouvi eu rogar-te pragas
Pela triste sina que nos davas
De passar a vida inteira
Na perigosa canseira
De sulcar e de vencer
Rio abaixo rio acima
O teu caudal tenebroso
De águas bravas
Muitos sofreram muitos suaram
Tanto mosto transportado no meu bojo
Para muitos foste caverna e fojo
Quantos estiolaram
Num canto triste de taberna
Tu agora não és rio és estrada
Percorrida por barcos de recreio
Recheados de gente que te olha
Divertida embasbacada
Já sem o receio de outras eras
Os meus tempos foram outros
Terminei a minha faina habitual
Não sei se estou pior se mais feliz
Sou um símbolo do passado nacional
Dei ao mundo a conhecer o meu país
Agora sou um souvenir de Portugal
André Moa
BARCO RABELO
Balouço tranquilo em tuas águas
E recordo as viagens de outros tempos
Sem alardes sem pesares sem mágoas
Com saudades sim mas sem lamentos
Para te sulcar muitas vezes fui desfeito
Contra as fragas que estreitavam tuas margens
Muitos cascos meus roçaram no fundo do teu leito
Muita gente ouvi eu rogar-te pragas
Pela triste sina que nos davas
De passar a vida inteira
Na perigosa canseira
De sulcar e de vencer
Rio abaixo rio acima
O teu caudal tenebroso
De águas bravas
Muitos sofreram muitos suaram
Tanto mosto transportado no meu bojo
Para muitos foste caverna e fojo
Quantos estiolaram
Num canto triste de taberna
Tu agora não és rio és estrada
Percorrida por barcos de recreio
Recheados de gente que te olha
Divertida embasbacada
Já sem o receio de outras eras
Os meus tempos foram outros
Terminei a minha faina habitual
Não sei se estou pior se mais feliz
Sou um símbolo do passado nacional
Dei ao mundo a conhecer o meu país
Agora sou um souvenir de Portugal
André Moa





13 Comentários:
Às 12:54 AM ,
Dad disse...
Belo post!
Óptimo poema também!
Às 11:41 AM ,
Brancamar disse...
Olá André,
Linda esta sua homenagem às gentes do Douro, á sua vida dura e aos barcos rabelos.
O painel de azulejo é maravilhoso!
Fico feliz por o ver tão activo e a escrever coisas tão belas. Quer a prosa, quer o poema são lindíssimos.
Beijinhos.
Branca
Às 1:19 PM ,
Graça Lopes disse...
O Douro está-lhe na Alma!
Muita saúde para o trazer à terra do seu coração.
Beijinho
Graça Lopes
Às 6:47 PM ,
Andre Moa disse...
Carissimas,
obrigadíssimo às três pelos rasgados elogios e, muito principalmente, pela grande amizade que revelam.
Só o facto de a próxima consulta coincidir com a reunião da Assembleia Municipal de Tabuaço me faz desistir de lá ir no fim do corrente mês. Em Junho será. Vamos lá ver.
O Douro está-me na alma, de facto. A minha alma é D'ouro. EHEHEH!Estes poemas são do meu livro DOURO MEU-DOURO EU. e este título diz tudo o que eu quero dizer com os poemas. Sinto o Douro tanto meu (DOURO MEU)que me confundo com ele (DOURO EU).
Festa primaveril Feliz.
Beijinhos.
André Moa
Às 12:04 AM ,
elvira carvalho disse...
Um post muito bonito, em que se nota o imenso amor que tem por aquela região.
Desejo-lhe uma Páscoa Feliz, com muita Luz e muito Amor que irradiem por todos os dias da sua vida.
Um abraço
Às 11:54 PM ,
Andre Moa disse...
Cara Elvira,
Aquela região é linda e é o meu berço, as minhas raizes, o meu mundo. Infelizmente para mim,vivo noutra galáxia. Meu corpo está fora, mas o meu espírito está lá, de corpo e alma, sempre. e cada vez mais com mais gosto, com mais amor.
Um abraço
André Moa
Às 12:19 AM ,
elvira carvalho disse...
Vim deixar um abraço, e agradecer o carinho do comentário no post do meu amado pai.
Deus o abençoe.
Às 1:24 AM ,
Brancamar disse...
Vim ver o Douro André e Vê-lo um pouco a si, com os olhos da alma, claro...!
Beijinhos
Às 12:54 AM ,
Andre Moa disse...
Veio aqui a Brancamar,
nada encontrou deste lado.
Estou como o Barco Rabelo,
agora sempre parado.
André Moa
Às 10:22 PM ,
mariabesuga disse...
balança o barco rabelo
com as palavras lá dentro
a trabalhar a memória
lembranças de vida inteira
fazem os dias de agora
levam o peso da história
Às 7:29 PM ,
Maria disse...
Caro André:
Acabei de comprar o seu livro e vou começar a lê-lo hoje mesmo.
Espero que tudo esteja a correr da melhor forma.
Admiro-o e estimo-o sem o conhecer, mas espero que nos encontremos em breve.
Posso mandar-lhe um abraço e um beijinho?
Então estão mandados.
Não consigo entrar no outro blog, por isso vai aqui.
Às 3:27 PM ,
Cauan disse...
André,
Aqui estou novamente para dar valor ao que deve ser dado.
Sua intimidade com as palavras é tão grande, que elas tocam o íntimos quando menos se espera. Gostei muito deste poema, e do seu amor e o valor que dá ao seu país. De muito bom gosto, assim se faz um grande texto.
Um granda abraço.
E parabéns pelos escritos.
Cauan
Às 10:54 PM ,
Carlos II disse...
Gostei do que li.
Vir até cá foi um pulo. Isto está tudo ligado, não é!
Parabéns.
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