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OLHAR DE XISTO

Um olhar terno mas atento e preocupado de um filho de Tabuaço sobre a vida nesta terra e de todos os que aqui vivem, de todos os presentes e os ausentes que, mesmo à distância, a amam.

sexta-feira, abril 10, 2009

Barco Rabelo
Painel de azulejos na Estação do Pinhão




Que epopeia a dos barcos rabelos! Que tragédia a da sua tripulação ao longo dos séculos, Douro abaixo, Douro acima, por entre escolhos vários e mil perigos! E muita desgraça! Quem navegar hoje no Douro não imaginará as tormentas padecidas por esta brava e destemida gente. O Douro hoje é uma estrada líquida, tranquila, calma e segura, sulcada por paquetes confortáveis para turistas desfrutarem, embasbacados, toda a espantosa beleza das suas margens polvilhadas de vinhedos e mortórios, de pomares reflectidos nas suas águas, de penedias suspensas dos altos céus. O suor das suas gentes transformado em mosto, hoje, é transportado em camiões cisternas pelas vias rodoviárias. Dantes a única via propícia para o seu escoamento era o rio, fero e medonho; assustador e perigoso. Só os barcos rabelos, carregados de pipas pejadas do generoso líquido se atreviam a sulcá-lo, contornando habilmente os penedos que lhe apertavam o leito e agigantavam o caudal. Que de sacrifícios! Que de padecimentos! Que vidas duras e tenebrosas a dessa gente audaz e destemida! Que vidas!


BARCO RABELO

Balouço tranquilo em tuas águas
E recordo as viagens de outros tempos
Sem alardes sem pesares sem mágoas
Com saudades sim mas sem lamentos
Para te sulcar muitas vezes fui desfeito
Contra as fragas que estreitavam tuas margens
Muitos cascos meus roçaram no fundo do teu leito
Muita gente ouvi eu rogar-te pragas
Pela triste sina que nos davas
De passar a vida inteira
Na perigosa canseira
De sulcar e de vencer
Rio abaixo rio acima
O teu caudal tenebroso
De águas bravas
Muitos sofreram muitos suaram
Tanto mosto transportado no meu bojo
Para muitos foste caverna e fojo
Quantos estiolaram
Num canto triste de taberna
Tu agora não és rio és estrada
Percorrida por barcos de recreio
Recheados de gente que te olha
Divertida embasbacada
Já sem o receio de outras eras
Os meus tempos foram outros
Terminei a minha faina habitual
Não sei se estou pior se mais feliz
Sou um símbolo do passado nacional
Dei ao mundo a conhecer o meu país
Agora sou um souvenir de Portugal

André Moa
Xisto

Um micaxisto

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